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Artigo

Rodrigo descreve o senso de comunidade da população.

 

“Pegue o meu coração como se fosse o seu” é um ditado popular tailândes que traduz bem o senso de comunidade na província de Chiang Rai, no Norte do país, onde 12 meninos do time Javalis Selvagens e o seu técnico ficaram presos por dias em uma caverna em julho do ano passado. Este foi um dos muitos ensinamentos deixados pelo resgate que comoveu o mundo em 2018, incluindo o repórter Rodrigo Carvalho, que participou da cobertura jornalística na Tailândia e relatou a experiência no livro “Os meninos da caverna” (Globo Livros).

Foi durante seu trabalho em Chiang Rai para um programa da série GloboNews Documento, realizado após o resgate, que Rodrigo ouviu o ditado popular tailandês que resume sua obra.

— É uma frase forte. Achei linda. Não precisa explicar muito seu significado. Ela é um resumo da forma como as pessoas se entregaram e trataram os garotos como se fossem da família — afirmou o correspondente da TV Globo em Londres.

No livro, Rodrigo descreve o senso de comunidade da população de Chiang Rai que, para ele, se mostrou fundamental na história dos meninos — e que tanto tem a ver com a frase do “coração”.

O jornalista viu um exemplo disso quando conheceu uma família de Bangkok que realizou uma viagem de 11 horas rumo ao local próximo à caverna para oferecer alimentos às pessoas que ali se reuniam — militares, voluntários, jornalistas ou qualquer um disposto a ajudar.

Segundo um monge tailandês evangélico entrevistado pelo autor, há uma conexão entre as pessoas no país, como se fossem da mesma família. Ele disse que, por exemplo, quando celebra o Natal, convida os amigos budistas e de outras religiões, assim como eles o chamam para comemorar suas datas especiais.

Outra situação que chamou a atenção do repórter foi ter visto um grupo de quatro pessoas e uma criança entregando para um monge sacolas com suco e alimentos, enquanto se curvavam e em um gesto de respeito, com as mãos espalmadas na altura do nariz e os dedões encaixados embaixo do queixo.

“A esmola é a ligação entre duas necessidades: a de quem pede e a de quem dá. Para o budismo, uma cadeia de equilíbrio capaz de curar sociedades”, explica o autor em um trecho do livro.

 

Com três meninos da caverna na secretaria da escola em que eles estudam Foto: Arquivo pessoal
EXERCÍCIO DE EMPATIA
Enquanto o jornalista estava na Rússia, participando da cobertura da Copa do Mundo, os Javalis Selvagens viviam momentos de incerteza na caverna Tham Luang. Logo após a eliminação do Brasil pela Bélgica, nas quartas de final, ele foi convocado para informar os telespectadores sobre o andamento das ações dos mergulhadores e voluntários.

— A causa mãe do livro sempre foi explicar para as pessoas o contexto político, social e religioso da Tailândia para ajudá-las a entender esse resgate, se colocando no lugar dos meninos. É um livro sobre esse exercício de empatia, palavra tão complicada de usar hoje em dia. A história deles resgatou a humanidade de muita gente — afirmou.

O ENCONTRO COM OS MENINOS
Rodrigo ficou em Chiang Rai por uma semana durante o resgate e, cerca de um mês depois, voltou para ficar mais uma semana trabalhando nas pesquisas e entrevistas para o livro. Um dos momentos mais marcantes de sua viagem à Tailândia foi o encontro com alguns dos Javalis Selvagens, desde o momento em que entregou a carta de uma menina do Piauí para o Adul, o menino evangélico do grupo, até o dia em que apareceu na escola deles e os presenteou com uma canga estampada com a bandeira do Brasil.

 

A canga, que abriu portas, ficou de presente para os Javalis Selvagens Foto: Arquivo pessoal
Para que tal feito fosse possível, o autor ressaltou que a ajuda de um brasileiro chamado Bruno foi fundamental. Morador da Tailândia há seis anos, Bruno atuou como intérprete, quebrando a barreira do idioma.

— O Bruno ajudou muito. Não sei se eu conseguiria encontrar os meninos se não fosse por ele. Ele entendeu o projeto do livro e a causa do livro, principalmente. Lá quase ninguém fala inglês. A gente trabalhou em dupla — disse Rodrigo.

Ainda sobre formas de se comunicar, um dos aspectos descritos no livro que compõe a cultura tailandesa é a capacidade que eles têm de se entenderem por meio de sorrisos. Dessa forma, com bom humor e uma canga do Brasil, Rodrigo conseguiu realizar o tão esperado encontro com um grupo de meninos que receberam uma nova chance de viver.

A canga do Brasil, ele contou, pertencia à mulher. Ele relatou tê-la pego e colocado na mala, já pensando no momento em que a daria de presente aos javalis. De fato, o sonho se concretizou, porém deixando-o com “uma dívida em casa”, brincou Rodrigo.

 

 

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